quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sua lembrança.

Tenho sua lembrança em mim como uma manhã chuvosa. Daquelas manhãs que dão preguiça, que deixam a gente rolando na cama, se esticando pra todos os lados, querendo recomeçar o sono. É a sua lembrança. Me deixa mole, prostrado, sem ânimo pra deixar o pensamento virar pra outra direção, senão seu rosto sorrindo, sorrindo e rindo até chegar à gargalhada frouxa e estridente e linda, como um pássaro da manhã que vem pra anunciar o dia já alto. Tenho sua lembrança como noite de lua cheia, daquelas que iluminam as águas e flores noturnas. É assim sua lembrança em mim. Clara. Jamais um dia de sol teve o brilho do seu sorriso, na minha lembrança. Ou mesmo o próprio sol não derramou tanta luz! É assim sua lembrança em mim. Como sua pele... suave e forte, densa. Sua lembrança é larga! Ocupa todos os espaços, preenche os cantos mais escondidos, é o chão e o teto, o colchão e o tapete, a mala, o rádio, tudo que sinto, que toco. Sua lembrança em mim é minha calma. É quando paro diante de uma vitrine e lhe percebo num vestido. É quando ando à deriva e nem me pergunto se sei aonde vou parar! Tenho sua lembrança em mim como uma carta que não escrevi. Tenho sua lembrança em mim como minha brutal incapacidade de ser feliz. Sua lembrança em mim é um erro. Agora eu sei. A sua lembrança é a constatação da ausência. A lembrança é a mostra da minha fraqueza. A lembrança é a não resistência, a não insistência. É o complemento do vazio que deixa a sua falta. É a mesquinhez da minha insensatez. Tenho sua lembrança em mim como um jardim de espinhos escondido por flores traiçoeiras. Como queria não lembrar... não sonhar, não desejar... Mas é assim a sua lembrança em mim, doente. Precisa da cura da presença, do toque da pele, de encostar o corpo, de beijar de língua, de apertar a carne e sentir pulsar a vida, provar o gosto, misturar os sabores... Sua lembrança precisa de um remédio que mate a mentira e o tédio!... Sua lembrança precisa ser arrancada como um tumor malígno. Sua lembrança é um vício que corrói, que destrói a possibilidade sã. Sua lembrança é um engano, um alento venenoso, um tiro de misericórdia na paixão. Sua lembrança é o que tenho de você. Sua lembrança. Só lembrança. Que cruel vingança...

8 comentários:

Bruno Negromonte disse...

Putz Jota! Quando penso que o lírismo já está quase exaurido, vem você com esse "balão de oxigênio" pra dar nova vida a poesia e suas diversas vertentes...
Parabéns pelo texto! que seja o primeiro de muitos em mais um canal direto contigo.
Abraço forte e Recife te aguarda ansioso.

Alessandra Bispo disse...

Emocionante.
Definitivamente.
Emocionante.

Sua fã de Sampa - Alessandra Bispo

LiviaSammara disse...

Simplesmente PERFEITO!!!
Claro... O Jota é um Poeta!!!
Parabéns!!!
Adorooo!

Beijosssssssss

Sylvia Araujo disse...

Ê poetão! Vai desnudar bonito assim lá longe!
Parabéns pelo blog, querido! Você é poesia pura!

Tati ou Nane disse...

Lembrança...essa coisa que ocupa nossa mente quando menos esperamos.

É por isso que sou sua fã, vc tem uma coisa que alguém tem que inventar o nome pois ainda não existe de tão bom que é.

Te adoro meu grnade amigo.
Bjs

Anjinho disse...

Agora li mais esse ! Kkkk fiquei sem palavras ! Só tenho a dizer que continue nos agraciando com tão belas palavras e emoções ! Grande abraço.

Sonia Oliveira disse...

Simplesmente maravilhoso!!!

Lia disse...

Sem palavras para expressar minha emoção depois de ler toda essa poesia.
Parabéns por essa sensibilidade tão...cativante!