domingo, 14 de dezembro de 2008

Antes de virar nuvem.


Naquela noite a chuva descia do telhado e respingava pra dentro da varanda. Obedecia à força sutil do vento. Coloquei as plantas no beiral e fiquei olhando as gotas que caíam sobre elas. Nada era programado, tudo à mercê do acaso. Umas eram gotículas que nem chegavam sequer a balançar uma pequena folha, e outras maiores, com volume que envolveriam uma formiga, pareciam gotas gigantes que deixavam as folhas durante uns instantes em constante movimento, até descerem escorregando e sumirem na terra. As folhas com jeito de lança, se adaptavam ao forçado balé por não terem aonde se amparar. Tinham raízes mas mesmo assim não deixavam de sofrer com a ação da chuva que instigava indiscriminadamente, devagar e constantemente, a parte que ficava exposta e indefesa. Se estavam gostando do frescor da água, só depois, olhando o viço que se mostraria com o tempo, eu iria saber. Naquela noite me senti como as plantas no beiral, sem poder contra as intempéries, e só alguns dias depois, iria saber se me molhar com meus pensamentos iria me fazer bem. Estava perdendo o controle das minhas certezas e nada que eu fizesse pra conduzi-las, adiantava. Era uma torrente incontrolável e apenas a emoção me encharcava. Eram gotas que me faziam balançar à mercê da sua vontade aleatória. Meus pensamentos e idéias se molhavam na chuva forte e se esvoaçavam nos ventos que açoitavam sem piedade as convicções de quase uma vida inteira! Só na solidão, sem querer dividir a responsabilidade das minhas decisões com ninguém mais, eu tinha que passar por essa tempestade! Talvez sentir a pele arrepiar com o vento do medo, ou, quem sabe, congelar com o frio na alma. O viço eu veria depois. Será que se mostraria? Será que faria minhas raízes mais fortes e as folhas mais firmes em seus galhos? Viver o avêsso de tudo o que vivi até agora era o desafio! Rebuscar, remexer, revirar todo o baú da memória à procura do momento do desvio do caminho, aquele instante que o ímpeto abriu uma brecha pro improvável, quando tudo ia dar certo. Viver, hoje, o avêsso seria voltar ao correto, ao destino traçado, ao provável! Sim, isso sim! Sou o avêsso do que por muito tempo amarguei! Não quero virar nuvem sem antes fazer o que vim pra fazer! Quero, um dia, chover as coisas boas de mim e balançar as folhas dos que me entenderão! Quero minhas palavras e melodias na pele dos sensíveis, ver o suor de quem sabe amar a vida se misturando com as gotas que vou chover. Não quero mais o mormaço ou as pedras sem fontes, tampouco os desertos. Prefiro os mares ou gotas ou letras que formam palavras ou músicas ou mesmo... lágrimas.
 

2 comentários:

Ale Bispo disse...

Quero minhas palavras e melodias na pele dos sensíveis, ver o suor de quem sabe amar a vida se misturando com as gotas que vou chover.

Não quero mais o mormaço ou as pedras sem fontes, tampouco os desertos.

Prefiro os mares ou gotas ou letras que formam palavras ou músicas ou mesmo... lágrimas

* Bendita são as aguas que queres *

Impossível não conquistar aquilo que você faz acontecer em milhares de humanos.

ÁGUAS DE AMOR

Uma flor...
Uma vida....

Que águas brotam em minha raiz?
Lágrimas?
Riso?
Sangue?
Sonho?

Meus olhos
despertam
as águas
mais puras...

Minha raiz
tem cores

Quantos
humores

Uma realeza
de flores
desbota
nas águas
de hoje

De onde
brotam
amores.

Sylvia Araujo disse...

Essas letras estão um absurdo.
Você, Jota querido, é um absurdo.
Bom saber que no mundo ainda tem gente que se importa em chover e suar.
Não, não vire nuvem. Ainda.
Beijo da cada vez mais fã.